quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Eleição sem Lula é fraude

ASSINE O MANIFESTO!  - A tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 de janeiro a data do julgamento em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade. Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do país. O recurso de recorrer ao expediente espúrio de intervir no processo eleitoral sucede porque o golpe do Impeachment de Dilma não gerou um regime político de estabilidade conservadora por longos anos.

O plano estratégico em curso, depois de afastar Dilma da Presidência da República, retira os direitos dos trabalhadores, ameaça a previdência pública, privatiza a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos, além de abandonar a política externa ativa e altiva.

A reforma trabalhista e o teto de gastos não atraíram os investimentos externos prometidos, que poderiam sustentar a campanha em 2018 de um governo alinhado ao neoliberalismo. Diante da impopularidade, esses setores não conseguiram construir, até o momento, uma candidatura viável à presidência.

Lula cresce nas pesquisas em todos os cenários de primeiro e segundo turno e até pode ganhar em primeiro turno. O cenário de vitória consagradora de Lula significaria o fracasso do golpe, possibilitaria a abertura de um novo ciclo político.

Por isso, a trama de impedir a candidatura do Lula vale tudo: condenação no tribunal de Porto Alegre, instituição do semiparlamentarismo e até adiar as eleições. Nenhuma das ações elencadas está fora de cogitação. Compõem o arsenal de maldades de forças políticas que não prezam a democracia.

Uma perseguição totalmente política, que só será derrotada no terreno da política. Mais que um problema tático ou eleitoral, vitória ou derrota nessa luta terá consequências estratégicas e de longo prazo.

O Brasil vive um momento de encruzilhada: ou restauramos os direitos sociais e o Estado Democrático de Direito ou seremos derrotados e assistiremos a definitiva implantação de uma sociedade de capitalismo sem regulações, baseada na superexploração dos trabalhadores. Este tipo de sociedade requer um Estado dotado de instrumentos de Exceção para reprimir as universidades, os intelectuais, os trabalhadores, as mulheres, a juventude, os pobres, os negros. Enfim, todos os explorados e oprimidos que se levantarem contra o novo sistema.

Assim, a questão da perseguição a Lula não diz respeito somente ao PT e à esquerda, mas a todos os cidadãos brasileiros. Como nunca antes em nossa geração de lutadores, o que se encontra em jogo é o futuro da democracia. ------------------------------------------------------------

Marcia Tiburi: Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.

Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.

Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.

Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.

Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.

Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os Direitos trabalhistas vazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.

Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.

O neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.

O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.

Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.

Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.

O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem a compreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.

Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.
Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.

O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…

A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas. -------------------------------------------------

Gilberto Maringoni: Faço campanha política desde 1974. Aprendi a pedir voto, a fazer panfletagens, a tentar convencer o eleitor, a organizar campanhas etc. Sei ler resultados eleitorais de centro acadêmico a pleitos presidenciais como qualquer um que lide com o assunto.

Também sou capaz de verificar movimentos em pesquisas de opinião, buscar identificar tendências e construir cenários através da tabulação das intenções coletadas de centenas, de milhares, de milhões de pessoas de acordo com múltiplas variáveis que compõem a decisão do voto. Repito, não é prerrogativa exclusivamente minha. Qualquer ativista mediano com alguma cultura política tem obrigação de fazer isso. Mas não consigo ler racionalmente a tendência de três votos: os dos desembargadores do TRF-4.

Talvez porque a palavra “voto” seja ali mal empregada. Não há objetividade clara nos movimentos dos três que se arrogarão ao direito de decidir o destino de um homem. Aliás, não é de um homem. Trata-se dos destinos de milhões de brasileiros e brasileiras. O trio decidirá se mais de cem milhões de pessoas poderão exercer plenamente suas prerrogativas cidadãs ou não. Sim, eu sei que a justiça tem determinados ritos e procedimentos, mas não é esse o caso. Os desembargadores não votam nada. O voto que está em jogo lhes é alheio. Proferirão doutas sentenças num processo de rarefeita objetividade jurídica e prenhe de subjetividade política.

Além da falta de provas já exaustivamente argumentada por muitos, há algo mais. Algo que não cai bem para nós de esquerda. Por força um moralismo demagógico que tomou conta de vários setores progressistas – PT, PSOL, PCdoB -, estes se aliaram com a direita e aprovaram no Congresso, em 2010, a lei da ficha limpa. O nome é lindo ...

A norma permite que se faça o que o TRF-4 buscará fazer com o ex-presidente Lula: torná-lo inelegível a partir de uma decisão de segunda instância. O irônico da coisa: o dispositivo foi sancionado pela própria vítima, Lula. A aprovação e a sanção se deram num quadro feito para saciar a sede de sangue de uma classe média narcotizada pela mídia e impulsionada por uma esquerda que viu na pura e simples denúncia de corrupção o caminho da construção de um projeto de país.

Valeria a pena realizar um colóquio de Ciência Política e verificar como e por que a esquerda – aqui o PT – viu na reedição do velho udenismo a melhor maneira de se legitimar, a partir do início dos anos 1990. O período coincide com a derrocada de Collor de Mello. É bom lembrar que a campanha pelo impeachment não tinha por mote a selvagem implantação do modelo neoliberal por parte do “caçador de marajás”, mas tão somente saber se ele havia roubado ou não. Dia 2 de outubro de 1992, Collor caiu. No dia seguinte, Paulo Maluf elegeu-se prefeito de São Paulo, mostrando o fôlego curto das campanhas de moralismo estreito. No cargo, Maluf deu início a um processo de privatização semelhante ao aberto pelo mandatário deposto.

Estão guardadas na memória as imagens dos deputados petistas José Dirceu e Aloísio Mercadante – no Jornal Nacional! – acompanhando diligências da Polícia Federal como fiscais de costumes no combate ao collorato.

A volta do udenismo se deu também na conjuntura da derrocada dos regimes socialistas do Leste europeu. Havia uma intensa campanha midiática de desqualificação da esquerda e da possibilidade de se mudar a sociedade de forma radical. É deste 1992 também o “Fim da História e o último homem”, best seller de Francis Fukuyama, que chegou para nos convencer da inevitabilidade do futuro capitalista (algo tão mecanicista quanto as piores vulgatas marxistas).

Se mudar o mundo não era mais possível, a saída é que ele continuasse ruim, mas com menos roubalheira. Não se ligavam injustiças sociais e concentração de renda à corrupção. No centro de tudo estava a necessidade de se saber se fulano é honesto ou não, de acordo com formalidades miúdas. Exemplo: um triplex sem provas é algo muito pior que uma taxa de juros – legal – que arrebenta o orçamento público, ou que um ajuste fiscal a ceifar verbas de setores essenciais.

O primeiro slogan criado para o PT por Duda Mendonça, na segunda metade dos anos 1990, era “Combater a corrupção e melhorar a vida do povo”. Sim, nessa ordem. A banda de música da União Democrática Nacional não faria melhor, quatro décadas antes…

Voltemos ao TRF-4. Os desembargadores não votam, não julgam. Decidem “sem interferências indevidas” o que pode e o que não pode, de acordo com o Alcorão íntimo de cada um. Ou com a Bíblia, ou com o Livros dos Mortos etc. A Constituição estará lá para decorar o ambiente.

Os três decidirão com um acúmulo de quase três décadas de neoudenismo impulsionado por uma atrapalhada aliança de quem buscava votos fáceis a partir de vários pontos do espectro ideológico nacional. Os Huguinho, Zezinho e Luizinho dos pampas decidirão pelos homens de bem, pelo futuro da nacionalidade, pelo lindo pendão da esperança e pelos sempre bem ocultos interesses de classe, que se vendem como interesses de todos. Só não tendem a decidir muito pela democracia e pela política ...

Por isso, a pressão popular não é apenas legítima. É necessária e urgente. Porque aquele troço lá não é voto! -----------------------------------------------


Jessé Souza: A sociedade brasileira foi vítima, a partir de 2013, de um dos ataques mais insidiosos e virulentos do capitalismo financeiro internacional.

O ataque teve um sentido duplo: quebrar a nascente experiência do BRICS enquanto tentativa de inserção internacional autônoma do País e transformar o Orçamento público por meio da dívida pública – gigantesca fraude de socialização de prejuízos e privatização de lucros –, além das riquezas nacionais, em um espaço livre para a rapina econômica de uma ínfima elite.

Como as outras frações dos proprietários, incluídos o agronegócio e a indústria, retiram seu lucro maior, crescentemente, da mesma fraude, a fração financeira do capital passa a ter o comando do processo econômico e do processo político.

O capitalismo financeiro não é apenas uma nova ordem econômica mundial. Ele não muda apenas a forma e a velocidade da acumulação do capital e a forma do controle do processo de trabalho.
Também criminaliza e estigmatiza a esfera política para que esta perca qualquer autonomia e a agenda predatória financeira possa impor-se sem qualquer restrição. E, acima de tudo, deseja evitar a mediação política como expressão de interesses das classes populares.

Daí a criminalização dos movimentos populares, o ataque aos sindicatos e a estigmatização dos partidos de esquerda. Na dimensão simbólica, o ataque foi planejado há décadas pela disseminação de think tanks conservadores no mundo e pela compra e cooptação da indústria cultural e da mídia.
O núcleo duro da nova forma de poder é bifronte: o capital financeiro assalta a população e legaliza sua corrupção pela compra da política e do Judiciário. E a mídia frauda o público por meio da distorção sistemática da realidade.

Essa estratégia de manipular as mentes para assaltar o bolso dos imbecilizados tem sólida tradição no Brasil. Como mostro no meu livro mais recente (A Elite do Atraso, Leya, 2017), a elite paulistana construiu a criminalização seletiva da política, contra Getúlio Vargas e seu projeto nacional, ao cooptar a elite intelectual e fundar a imprensa elitista e venal que hoje possuímos.

A ascensão de Vargas, com o apoio da classe média “tenentista”, havia mostrado à elite a necessidade do controle da heterodoxia rebelde da classe média letrada. Se em relação à classe trabalhadora e à “ralé” de marginalizados a violência material e física era, e continua a ser, o tratamento “normal”, em relação à classe média a estratégia teria de ser outra.

Como a pequena elite precisa da classe média como sua aliada carnal no exercício diário da dominação econômica social e política, esta tem de ser seduzida e conquistada. Daí a estratégia de convencimento e não de repressão. Para “convencer” é preciso ideias e uma imprensa elitista e venal para distribuí-las.

Essa elite criou a USP como seu gigantesco think tank do liberalismo conservador brasileiro e a tornou universidade de referência nacional, que forma os professores e estipula os critérios das outras instituições de ensino superior.

Assim, temos a formação de todas as elites nacionais segundo uma referência comum, as ideias centrais de patrimonialismo e de populismo, ambas criadas e difundidas pela USP.

A primeira tese sustenta que a corrupção é só do Estado e da política para tornar invisível a corrupção do mercado, possível pela captura do poder público enfraquecido e criminalizado. Depois, ainda diz que a elite do mal está no Estado, tornando o mercado um espaço idealizado de virtudes como empreendedorismo, honestidade, trabalho duro e iniciativa individual.

O conceito de populismo serve, por sua vez, para tornar as classes populares suspeitas de burrice inata e, portanto, presas fáceis de líderes demagógicos e manipuladores. Com isso, de uma penada, pode-se mitigar o efeito do princípio da soberania popular e tornar suspeita qualquer liderança popular. São essas ideias, distribuídas desde então todos os dias, que envenenam a capacidade de reflexão da população.

Não bastasse, criou-se uma narrativa histórica de longa duração, baseada nessa visão distorcida, possibilitando uma singularidade “vira-lata”, hoje patrimônio indissociável de todo brasileiro. É que a corrupção dos tolos, só do Estado e da política, passa a ser percebida como herança portuguesa e ensinada não só nas universidades, mas a toda criança brasileira na escola.

O ridículo dessa crença, que supõe já existirem no século XIV em Portugal noções que só seriam criadas no século XVIII, entre elas a ideia moderna de bem público, que pressupõe o conceito de soberania popular, não parece ter incomodado ninguém.

O ponto decisivo, ao arrepio da verdade e da inteligência, é inverter o sentido de apropriação privada do público como atributo do Estado e da política e nunca do mercado e da elite de proprietários.


Sem o esclarecimento dessa pré-história, a conjuntura atual é incompreensível. O golpe de 2016 é uma continuidade aprofundada e mais cruel dessa grande fraude brasileira iniciada em 1930. Todos os golpes de Estado desde então tiveram exatamente o mesmo roteiro.

No mais recente, não apenas se reverberou a mentira pronta de cem anos da corrupção dos tolos e do populismo. Sob o comando da Rede Globo e da farsa da Operação Lava Jato, atacou-se o próprio princípio da igualdade social como maior valor do cristianismo e da cultura ocidental.

O ataque seletivo ao PT, entre 2013 e 2016, como “organização criminosa”, narrativa criada pela Globo e depois assumida pela própria Lava Jato, desnudando seu conluio midiático e elitista, é o principal elemento da conjuntura.

O PT, com todos os seus defeitos, foi a única verdadeira novidade da política brasileira nesses últimos cem anos. Um partido que nasceu, em grande medida, de baixo para cima, espécie de confederação de movimentos sociais e associações de trabalhadores do campo e da cidade que procurou assegurar uma pequena parte da riqueza social e do Orçamento público para a maioria carente.

Ao criminalizar tão somente o Partido dos Trabalhadores, enquanto se “fulaniza” a corrupção das demais legendas, conseguiu-se rebaixar a própria demanda por igualdade que o PT simbolizava para as classes populares, de fim moral mais alto em simples meio para um suposto saque ao Estado.
Para onde vão o ressentimento e a raiva justa que os excluídos sentem por causa da exclusão? Sem expressão racional e política possível, o ressentimento popular transforma-se em massa disforme de anseios, medos e desejos irracionais à procura de expressão. Esse é o verdadeiro pano de fundo para as eleições de 2018.

Jair Bolsonaro, como ameaça real, só é compreensível pela ação conjunta do conluio Globo-Lava Jato. Por sua vez, a imunidade parcial de Lula a uma desconstrução orquestrada é reflexo da inteligência prática das classes populares que percebem a política como o jogo dos ricos e corruptos, e querem saber unicamente o que sobra para eles. E foi Lula quem entregou algo a quem nunca teve nada.

Apesar do sucesso pragmático inicial, o golpe perde legitimidade a cada dia. Seu planejamento míope e de curto prazo cobra agora um alto preço daqueles que sujaram as mãos pela elite do saque, a começar pela mídia venal que arriscou seu capital de confiança. E passa pela casta jurídica que acobertou a Lava Jato e destruiu a segurança jurídica e pela política tradicional, que perdeu qualquer legitimidade.

Articuladores tão medíocres fizeram com que, pela primeira vez nestes cem anos de domínio material e simbólico da elite do saque, as entranhas do País real estejam à mostra como nunca dantes. Tudo que era sólido se desfez no ar. Todas as ideias que colonizavam a direita e a esquerda também.

As oportunidades abertas pelo fracasso na legitimação do golpe são revolucionárias. Elas podem efetivamente permitir expor a crueldade do domínio de uma elite mesquinha e de seus prepostos hipócritas na mídia e no aparelho de Estado. Abre-se a possibilidade objetiva de um processo de aprendizado histórico inédito no Brasil.


O problema real da oposição de “esquerda” é que ela foi criada nesse mesmo jogo e, ainda pior, nas mesmas ideias. A esquerda é tão miopemente moralista quanto a direita. Também não possui ideias próprias sobre o funcionamento da sociedade ou do Estado.

Daí ter perdido a narrativa da ascensão social, que ela mesma produziu, para as igrejas evangélicas. Daí ter aparelhado e dado força a instituições de Estado que depois a perseguiram com sanha assassina.

Como em toda crise radical temos agora em 2018 tanto a possibilidade do caos quanto a oportunidade do novo. O discurso da esquerda não pode ser o da volta ao passado, mas o do aprendizado de um novo futuro. O desafio é difícil, mas incontornável.


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