sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

NEM TODOS ESQUECEM

Always Look on the Bright Side of Life
“A vida de Brian”, clássica comédia cinematográfica do grupo de humor inglês Monty Python, acompanha as desventuras de um pobre coitado cuja vida é infernizada por ter nascido na manjedoura ao lado da do menino Jesus e ter sido, por isso, confundido com o messias. Numa das cenas mais antológicas do filme ele perde uma sandália ao fugir, pela enésima vez, de uma turba de seguidores fanáticos, o que causa um cisma na “religião”: parte acha que aquilo foi um sinal e começa a se auto-denominar de “facção dos seguidores da sandália”, parte prefere seguir “puro” na doutrina e continuar a perseguição. Lembrei disso ao saber que não existe nenhum trecho do alcorão em que seja explicitamente clara a proibição da representação do profeta em imagens. Fica tudo por conta da interpretação de cada um, com as devidas variações, de acordo com as tradições – há, inclusive, os que proíbem a representação de qualquer ser vivo! Ou seja: tanto barulho - e morte!!! - por, praticamente, nada!

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por Gessy Kelly
“Clandestino” é um projeto itinerante no qual uma juventude que vive à margem do calendário cultural “oficial” e/ou “comercial” ousa tomar o espaço público e produzir, de forma absolutamente independente e alternativa, sua própria música. Divulgam a data e o local das apresentações via facebook e geralmente aproveitam a passagem pela cidade de alguma turnê “subterrânea” de grupos amigos ou com os quais tenham alguma afinidade. É capitaneado pelo pessoal da “The Renegades of punk” e contou em sua décima edição, ocorrida no última dia 11 de janeiro, um domingo, com apresentações, além dos anfitriões, da Karne Krua, veterana banda punk Hard Core local – completando 30 anos de atividades ininterruptas! – e da NTE (Nem Todos Esquecem), do Rio Grande do Norte.

por Gessy Kelly
Os potiguares surpreenderam positivamente com um show visceral onde se destacou a presença de palco de seu vocalista que, não por acaso, se apresenta sob a alcunha de “Falante”. Ele falou, muito, e com uma convicção assombrosa, que se via estampada em sua face. Algo raro de se ver nos dias de hoje, dominados pelo cinismo e pela apatia. Falou e pintou e bordou, numa perfomance impressionante – e espontânea, o que é muito importante. Tudo o que é dito nas letras das músicas é interpretado com gestos teatrais – reverenciar uma bicicleta, por exemplo – e expressões faciais que dão uma nova dimensão ao som da banda, um punk rock bastante básico, simplório, até. O que não é, em absoluto, um demérito: menos é mais, já ensinaram os Ramones em pleno auge dos excessos do rock progressivo. O punk rock não morreu, nem morrerá, enquanto existirem bandas com esse tipo de atitude – percorrer cerca de 800 km para tocar na praça, na raça, não é pra qualquer um! E, de quebra, na passagem pela Paraíba ainda trouxeram a tira-colo a dupla dinâmica Adriano e Olga, responsável pelo programa de rádio Jardim Elétrico e pelo jornal/sêlo Microfonia. Grandes figuras ,,,

por Gessy Kelly
Em tempo: “presença de palco” é força de expressão, já que não há palco no clandestino. É tudo feito no mesmo nível, em perfeita simbiose com o publico – que compareceu em bom numero, especialmente para um domingo. E foi bastante participativo, principalmente durante a apresentação da Karne Krua. Que foi, como sempre, sensacional, transbordando energia e, acima de tudo, VERDADE. Muito bom ver gerações de “rockers” permanecerem unidas em torno do bom e velho lema do “faça você mesmo” - e na rua, ao ar livre. Vida real! Sem porta, sem muros e com a presença de várias crianças. E de cachorros.

Tudo isso aconteceu há mais de um mês, o que desencoraja a publicação. Resenhas tão tardias, nestes tempos de velocidade supersônica e informação instantânea, correm o sério risco de parecerem textos datados discorrendo sobre assuntos agora irrelevantes, porque “já passou” e a grande maioria já esqueceu – e pior, ninguém tem mais interesse em lembrar.

FODA-SE! NEM TODOS ESQUECEM!

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Mais tempo ainda tem a última Festa da Antevéspera, que aconteceu no apagar das luzes do ano passado. Trata-se de um evento criado por fãs “auto-exilados” – leia-se “que moram fora” - da banda Snooze com o intuito de aproveitar a presença da maioria deles na cidade para as festas de fim de ano e promover um encontro para matar a saudade. Esta última edição contou com as participações especiais de Arthur Matos, Dani “renegades” – fazendo uma apresentação recheada de clássicos alternativos acompanhada pelos “snoozers” – Julio, da The Baggios, e Patrícia Polayne, que acabou de vez com qualquer dúvida que porventura existisse de que ela é uma grande cantora ao interpretar a belíssima “Ivo”, do Cocteau Twins. Inesquecível!

Muito bom, também, ter assistido à volta do rock ao palco do Cultart, espaço cultural mantido no centro de Aracaju pela Universidade Federal de Sergipe que já abrigou noites insanas e antológicas, como os show da Mundo Livre S/A, do No Rest e do Jason – com direito a tiros de bacamarteiros! – além, é claro, da inesquecível Boate do porão. Tinha esperança de que tivesse sido uma volta “pra ficar”, mas a julgar pelo estresse que rolou no final da noite, com a apresentação da snooze tendo que ser encurtada por conta das restrições de horário, não vai rolar ...

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Vale o registro, também, de mais uma passagem do grande bardo “punk brega” Wander Wildner pela terra dos cajueiros e dos papagaios(sqn). Foi de surpresa, aproveitando uma visita dele à cidade acompanhando a namorada, cuja irmã mora aqui. Foi acompanhado por uma excelente banda formada por músicos locais que, ao final, nos brindaram com uma sensacional sessão de covers de rocks clássicos, tipo Beatles, Bowie, Led Zeppelin, Deep Puble, Black Sabbath, The Jam e The Kinks.

O show de Wander foi muito bom, metade acústico, metade elétrico. Altos clássicos cantados a plenos pulmões pelos empolgadíssimos fãs locais. O local, também, ajudou – apesar de, por ser pequeno, ter deixado a mesma quantidade de gente que entrou do lado de fora. Foi na simpática Dogueria do Artista, no Inácio Barbosa.

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Richard Linklater é o cara! Versátil como poucos, vai da comédia mais “pop” – “Escola do rock”, que tava passando na tradicional Sessão da tarde da globo dia desses – ao mais rebuscado manifesto existencialista – “Waking life” – com uma desenvoltura admirável. Em “Boyhood” ele volta suas lentes para a vida, em si. A vida das pessoas simples, que não tem nenhum papel excepcionalmente importante nos destinos da humanidade. E nos ajuda a refletir sobre a mágica que é simplesmente viver – e conviver. A mágica de ser. Ser humano, ser nós mesmos. Ser o que somos. Ser importante na vida de alguém sem ao menos se dar conta disso. Ou se dar conta disso e estar constantemente à beira de um colapso por conta das pressões decorrentes ...

Magistrais interpretações de todo o elenco, ajudado pelos excelentes diálogos e por uma direção segura – o que é especialmente admirável quando nos damos conta que o cara levou mais de uma década, acompanhando a ação do tempo sobre os personagens, para filmar tudo! Difícil escolher um destaque, mas devo dizer que adorei a versão "mirim" da personagem Samantha, vivida pela filha do diretor, Lorelei Linklater. Divertida, espirituosa e IRRITANTE, como só as irmãs pequenas conseguem ser. Depois ela cresce e se transforma numa pessoa ... normal. Tudo aqui é "normal", mas se agiganta pelo olhar aguçado da lente do realizador. Tudo muito humano - demasiado humano ...

Vale notar, também, a ausência de maniqueísmo na narrativa: todos são mostrados com seus defeitos e suas virtudes, sem resquícios da vilania rasteira típica dos “blockbusters”. A cena emblemática, neste sentido, é a que mostra a visita do pai, com seus filhos, à casa dos novos sogros, típicos representantes do chamado “cinturão bíblico” da “américa profunda”, onde o livro sagrado convive em perfeita harmonia com as armas de fogo. Num dado momento, à beira de um lago, ele é questionado sobre uma possível conversão, em tom jocoso. “Eu estou ouvindo vocês”, diz a nova esposa, sentada à distância, em tom de galhofa. As diferenças são mostradas, portanto, de forma respeitosa, amorosa, e sem julgamentos – se há algum, fica por conta do olhar do expectador. Uma cena simples, mas tocante.  

Até a duração exagerada do filme serve pra nos lembrar de que a vida, às vezes, parece durar demais. Só nos damos conta do quanto ela é, na verdade, breve, quando nos deparamos com as situações pelas quais sabíamos que iríamos passar mas que parece que esperávamos que não chegassem nunca, como a que provoca uma crise de choro na mãe, interpretada por Patricia Arquete. Nessa hora ela diz a frase-chave para entender o longa: "eu esperava mais". A gente sempre espera mais ...

Não foi o meu caso, com relação ao filme. Achei perfeito.

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Esqueça a “bomba” que os irmãos Wachovsky (de Matrix!.) soltaram nos cinemas neste início de ano: a verdadeira redenção da “space opera” está nos quadrinhos! Acabou de ser lançada no Brasil, pela Devir, a sensacional série “Saga”, de Brian K. Vaughan (Ex- Machina e Y: the last man). É uma espécie de Romeu e Julieta intergaláctico, a história do amor impossível de um casal de espécies diferentes – e beligerantes – em meio a muito sexo, fantasia, violência e intrigas políticas.

Edição primorosa, em capa dura e papel couchê.

Imperdível!

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As bancas nos trouxeram recentemente, também, duas grandes e agradáveis surpresas: os relançamentos de dois verdadeiros clássicos dos quadrinhos, “Miracleman” e “A Tumba de Drácula”, via Panini. O primeiro é uma obra-prima do mestre Alan Moore que estava perdida num verdadeiro labirinto burocrático por conta de um gigantesco imbróglio com os direitos autorais. Já o segundo é uma pérola “pulp” que vale, especialmente, pelos desenhos de Gene Colan e pelo clima típico do terror cometido pela produtora Hammer durante a década de 1970, quando trouxe a figura do conde vampiro da Transilvãnia aos dias atuais. Pra mim é especialmente digno de comemoração, este lançamento, pois tenho uma ligação afetiva muito forte com estas histórias, que eu acompanhava antes mesmo de aprender a ler, fascinado com os desenhos e curiosíssimo pra saber o que estava escrito. São tramas um tanto quanto esdrúxulas e “rasteiras”, mas que resultam numa leitura, no mínimo, interessante – e divertida. Tá valendo.

Vivemos um grande momento em termos de lançamentos de quadrinhos no Brasil.

Que venha mais! O bolso reclama, mas a satisfação é garantida.

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Por conta da efeméride dos 50 anos do golpe militar resolvi tomar vergonha e começar a ler, finalmente, a monumental série "As Ilusões Armadas", de Elio Gaspari. Lançada originalmente em 2002 e relançada recentemente em edição revista e ampliada pela editora Intrínseca, é considerada por muitos a obra definitiva sobre o período - até o fim do governo Geiseil, no caso. Figueiredo, de acordo com sua própria vontade, foi relegado a um solene esquecimento. Trata-se de uma obra-prima absoluta, um primor de reportagem escrita de forma impecável que esmiúça em detalhes todas as tramas sórdidas que mergulharam o Brasil em mais de 20 anos de escuridão - um verdadeiro apagão ético e moral. Essencial, especialmente nos tempos que vivemos, onde o excesso de informação parece estar produzindo, como efeito colateral, a desinformação, com vivandeiras do retrocesso encontrando, surpreendentemente, eco para suas malcheirosas tentativas de revisionismo histórico ao vomitar asneiras do tipo "o golpe foi uma reação ao terrorismo de esquerda" - não foi! A luta armada surgiu como legítima defesa à brutalidade do regime. Ou a idéia de que os militares estavam empenhados, efetivamente, no combate à corrupção - não estavam! O foco era na repressão. A corrupção progrediu na mesma medida do "milagre econômico", com direito, inclusive, à existência de  verdadeiras gangues gestadas no seio das forças armadas e empenhadas na delinquencia pura e simples, para muito além do espectro ideológico.

Está tudo lá, nos quatro volumes - de cinco, o quinto nunca viu a luz do dia mas segue prometido, para este ano. Narrado de forma honesta e equilibrada, mas sem se furtar a emitir opiniões e juízos de valor – a reunião que aprovou o AI-5, por exemplo, é chamada de “Missa Negra”, e os combatentes da luta armada são chamados de “terroristas” – com isso não sei se concordo, certamente não da forma generalizada como é apresentada, mas a opção semântica, a meu ver, não compromete a narrativa, que segue honesta até o fim do segundo volume – onde parei, num magnífico capítulo inteiramente dedicado à luta no Araguaia.

Uma curiosidade: na primeira edição, a que tenho - e li - não é feita nenhuma menção à então ministra das minas e energia Dilma Roussef, cuja história nos porões da repressão só adquiriu notoriedade após seu lançamento como candidata à presidência da república. Somente na nova edição, revista e ampliada, ela está presente.



Essencial!

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Aproveitei uma promoção de passagens aéreas, dessas que pipocam inesperadamente na tela de nossos computadores via publicidade na net, para conferir, em São Paulo, as exposições de Salvador Dali, no Instituto Tomie Ohtake, e de Ron Mueck, na Pinacoteca. O primeiro dispensa apresentações, já que é um verdadeiro ícone pop. A mostra, a maior dedicada ao artista até o momento, no Brasil, contou com um conjunto de obras formado por 24 pinturas, 135 trabalhos entre desenhos e gravuras, 40 documentos, 15 fotografias e quatro filmes. De encher os olhos e atiçar os sentidos.

Mueck é um escultor australiano radicado na Inglaterra. Ele trabalha com imagens hiper-realistas feitas de fibra de vidro e silicone que, por suas dimensões desencontradas da realidade, causam uma sensação de estranheza, flertando com o surrealismo. A mostra – ao contrário da de Dali - segue em cartaz até o dia 22 de fevereiro. A partir das 5 da tarde, às quintas, a entrada é gratuita. Peguei uma fila relativamente grande no dia em que fui, mas nada desesperador. Vale muito a pena, também, uma visita adicional ao acervo da pinacoteca, repleto de esculturas e quadros antológicos, daqueles que você passou a vida inteira vendo ilustrando livros didáticos. Se chegar cedo, a dica é um passeio pelo Parque Jardim da Luz, nos arredores da estação. É repleto de esculturas, algumas assinadas por nomes ilustres, como Lasar Segall e Victor Brecheret.

Desnecessário dizer que há várias outras opções de diversão e entretenimento cultural na grande metrópole. Sugiro uma conferida na programação do Cinesesc, o mais charmoso da cidade - conta, inclusive, como um serviço de bar dentro da sala de projeção! Lá revi o clássico "O Franco Atirador", dentro de uma Mostra retrospectiva do diretor Michael Cimino. E vi também, gravado nas paredes do cinema, o nome de um amigo, o ilustre jornalista e poeta sergipano Amaral Cavalcante, como parte integrante do elenco de "Sargento Getulio", de Hermano Penna - trata-se de um painel que homenageia grandes nomes do cinema nacional. Fica na Rua Augusta, número 2.075.

Logo abaixo, na mesma rua - número 2.389- temos a Sensorial Discos, simpático e aconchegante espaço dividido entre cervejas especiais e discos de vinil. É de propriedade de um grande amigo dos tempos de "fanzinagem", Carlos Rodrigues Costa - que vem a ser, também, baixista da banda Continental Combo. Lá encontrei, por puro acaso, o baterista sergipano Thiago "Babalu" - ex-Karne Krua, Sem Freio na Lingua, Fluster, etc. Ele estava em êxtase pois havia sido convidado de surpresa, na noite anterior, para substituir uma verdadeira lenda viva do rock, Steve Shelley, no show do igualmente lendário Thurston Moore - ambos membros-fundadores do Sonic Youth. Show ao qual não fui por ter considerado o preço extorsivo - 180 reais por uma apresentação de cerca de uma hora, convenhamos, é um pouco demais. Teria ido, se soubesse que um amigo de longa data estaria presente, no palco. Mas ok, nem ele mesmo sabia. Pior: me disse que teria deixado meu nome na porta, caso soubesse que eu estava por lá. Hora de respirar fundo e mentalizar, para se conformar com o azar ...

A

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