sexta-feira, 18 de agosto de 2017

HEIL TRUMP!

O mundo assistiu paralisado às imagens dos protestos de grupos de extremistas na pacata cidade Charlottesville, no estado da Virgínia. A impressão era que a caixa de Pandora havia sido aberta. Grupos que pregavam a supremacia branca, suásticas nazistas, cruzes incandescentes, bandeiras dos confederados e do Tea Party. A imagem da Ku Klux Klan, antes desbotada pelo tempo, agora aparece colorida.
“Eu sou nazista, sim!”, gritava um homem. Essa frase estampou a manchete de vários jornais, deixando os leitores incrédulos. A intolerância e o ódio tornaram-se motivo de orgulho, de autoafirmação. Os casos particulares também chamam a atenção. Um jovem de 20 anos acelerou em direção a uma multidão, matando uma mulher e deixando outros 19 feridos. Outro garoto viajou mais de 4 mil quilômetros para participar do protesto. Todos jovens, todos com pouca experiência e pouca vivência. Mas todos cheios de certezas e em busca de justiça. Mas uma pergunta ficou sem resposta: justiça em relação a quê?
Os protestos foram convocados inicialmente para impedir a remoção da estátua do general Robert Lee. Lee lutou comandou o exército da Virgínia do Nortedurante da Guerra Civil americana. Nesse ponto é preciso cuidado, não vou aprofundar as explicações sobre quem foi essa figura obscura, porque isto não importa. O que aconteceu sábado pouco tem a ver com uma suposta “verdade histórica”. Mas era um embate político em torno da memória, que diz mais sobre o presente do que sobre o passado.
Monumentos históricos não são livres de disputas ideológicas. Muito pelo contrário, são resultados delas. Ao resolver demolir a estátua do general, o prefeito mexeu em feridas ainda não cicatrizadas. Em problemas que não estão resolvidos.
Este texto busca entender como a imagem de um general do exército confederado foi capaz de unir movimentos políticos aparentemente opostos como "libertários" e neonazistas. O que teria causado tanto ódio? Para responder essa pergunta é necessário, primeiro, entender as bases do conservadorismo norte-americano.

As origens do conservadorismo nos EUA


Já virou lugar comum dizer que os EUA são um país de imigrantes. Essa afirmação, sozinha, é tão verdadeira quanto inútil. Para compreendermos a sociedade americana é preciso ir além das generalizações. Ok, eles são um país formados por imigrantes. Mas qual o sentido e os efeitos desse fluxo de pessoas na conformação da cultura política do país? Essa pergunta é muito mais interessante e ilustrativa.
Segundo o historiador Roger Osborne, o principal efeito político de imigração foi o bipartidarismo. Ora, por serem um país de imigrantes, afirma Osborne, nenhum grupo tinha força suficiente para impor a sua agenda. Isso poderia levar a uma fragmentação ou poderia aglutinar esses grupos em duas grandes agremiações. Segundo o mesmo autor, as diferenças étnicas, culturais e raciais foram aos poucos perdendo espaço diante da crescente polarização. Essa afirmação precisa ser relativizada.
As culturas que formaram os EUA não chegaram ao mesmo tempo e não tinham o mesmo peso. O mito de origem americano começa num navio. Porém, ele não era uma “Arca de Noé cultural”, mas um pacto feito por ingleses puritanos enquanto partiam para o desconhecido. Ou seja, há um modelo bem definido do que seria o homem americano. Os imigrantes não vieram para compor um universo plural, mas precisavam se encaixar numa hierarquia predeterminada.
Com o tempo, essas fronteiras étnicas, que inicialmente eram bem demarcadas, foram sendo borradas. Assim, grupos radicais se agarravam cada vez mais às tradições e a um passado idealizado. Segundo o pensamento conservador, o verdadeiro americano seria sintetizado por uma sigla: WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant).
Portanto, ao contrário do que propõe Osbourne, as diferenças étnicas, culturais e raciais não foram perdendo espaço, mas elas criaram outra divisão, que de tempos em tempos emerge no debate político. Tal polarização é entre os grupos culturais que buscavam espaço e os chamados WASP que, guiados por um ideal mítico de sociedade, desejavam manter o modelo aristocrático.
Essa divisão nunca desapareceu por completo. Quando os manifestantes de sábado gritavam frases como “nosso solo” ou “nossa terra”, eram essas representações que eles estavam evocando. A defesa da cultura europeia/protestante e da supremacia branca está na origem do movimento conservador nos EUA.

A abolição da escravidão e os movimentos de supremacia branca



Em 1865, a Guerra Civil terminou. Os Estados do Sul estavam sob intervenção da União. O projeto dos vencedores era construir um novo pacto social capaz de unir um país totalmente polarizado. Os EUA não seriam mais um país de protestantes brancos, mas da liberdade individual. Local em que qualquer pessoas poderia progredir pelo mérito individual, independente da origem ou da cor da pele.
Houve uma série de mudanças legais. A Décima Terceira Emenda à Constituiçãohavia abolido a escravidão. Na teoria, todos os homens eram iguais. O Civil Rights Act conferia a brancos e negros os mesmos direitos. A Décima Quarta Emenda, 1868, estabelecia que qualquer pessoa nascida em território nacional seria considerada cidadão americano. Enquanto de Décima Quinta Emenda, 1870, afirmava que o direito de voto do cidadão era inalienável e não poderia ser suprimido em nenhuma circunstância, incluindo brancos e negros.
Mas o processo de integração do negro à sociedade não seria simples. Nenhum país passa por séculos de escravidão e sai impune. As heranças desse sistema são muito profundas e as feridas demoram séculos para cicatrizar. A esfera política é muito mais dinâmica que a cultural. As instituições mudam, assim como o sistema legal, mas os valores arraigados permanecem. O racismo e o ódio são o substrato mais perverso desse sistema político.
O negro era visto como inferior e não seriam algumas emendas constitucionais que mudariam tais convicções. É importante destacar que, apesar de ser mais forte no sul, o racismo era disseminado e amplamente aceito por toda a sociedade americana. Inclusive entre os abolicionistas. Ser contra a escravidão não é sinônimo de considerar brancos e negros iguais. Para que isso ocorresse levaria muito tempo. Ou melhor, como vimos recentemente, esse caminho ainda está distante do fim.
O conceito de liberdade é plástico e muitas vezes ele é usado para esconder formas de coerções. Conforme os Estados do Sul fossem recuperando a autonomia, os direitos civis dos negros iam sendo revistos.
As Leis de Jim Crow (1876–1950), que vigoraram por quase um século, impuseram um apartheid social. Negros e brancos não frequentariam os mesmos espaços públicos. A justificativa era que ambos eram livres, porém deveriam ser mantidos separados. Na prática, ao contrário do que o discurso sugere, tal legislação não separou o país em dois, mas serviu para institucionalizar o racismo, a segregação e para negar os direitos civis para boa parcela da população.
Os radicais americanos não estavam satisfeitos. Para eles, os negros serviam apenas como mão de obra; sem escravidão não haveria mais utilidade. Eles deveriam, portanto, ser eliminados ou expulsos. Movimentos fundamentalistas como a “Camélia Branca”, “Irmandade Branca”, “Associação dos 76” e a famosa “Ku Klux Klan” (KKK), datam desse período e pregavam abertamente a superioridade da raça branca.
A lógica da KKK era muito parecida com a do nazismo e nos ajuda a perceber a dinâmica do radicalismo. Ambos, KKK e nazismo, emergem após uma derrota militar — a Guerra Civil (no primeiro caso) e a Primeira Guerra Mundial (no segundo). Diante da frustração com a derrota e vendo o mundo em acelerada transformação, os fundamentalistas se agarravam às tradições. A um suposto passado glorioso. Ao comparar esse passado idealizado, mítico, com a realidade imperfeita do presente, chegava-se a uma conclusão bastante simples: a nação está se degenerando; culpa de certos grupos que não sabem o seu lugar e não respeitam as hierarquias naturais.
Essa é a estrutura mental dos movimentos radicais. Há uma ordem metafísica e perfeita que precisa ser respeitada. Esse modelo pode vir do passado idealizado, momento em que todos viviam em harmonia; de uma realidade transcendental, divina; ou de um futuro no qual se almeja. No nazismo, por exemplo, mais próximo do cientificismo (sem obviamente desconsiderar o forte componente mítico), a eugenia “provava” que os arianos eram a raça superior. No universo mental da KKK, mais místico, deus dera superioridade moral ao homem branco.
Se os arianos eram superiores, como explicar o caos que a Alemanha vivia nos anos 1930? O mesmo pode ser dito em relação à derrota dos confederados na Guerra Civil. A culpa naturalmente seria do outro. Dos grupos estigmatizados. Para os supremacistas brancos, a abolição havia quebrado a ordem natural, sendo os negros, que não respeitavam os desígnios divinos, os responsáveis pela degeneração social.
Essa lógica está presente em quase todos os movimentos extremistas. Invariavelmente, são grupos que acreditam ter uma verdade, seja de natureza divina, seja de origem científica. Porém, há um problema. Como uma verdade evidente só é reconhecida por uma pequena seita? A resposta desses movimentos é: há uma conspiração que impede os homens comuns de enxergarem a verdade. É nesse momento que os grupos estigmatizados são fundamentais para a organização do cosmos extremista.
No caso americano, haveria uma cultura superior que estaria sendo ameaçada por grupos inferiores, representado pela imagem do homem negro. O negro seria uma ameaça a toda a sociedade, pois ele carregaria o germe da degeneração social. Não bastaria, portanto, mantê-los segregados. Seria preciso subjugá-los e humilhá-los. Para redimir a afronta dessas pessoas e resgatar um equilíbrio idílico. No limite, eles deveriam também ser eliminados.
A KKK seria responsável por centenas de morte nas décadas seguintes. Alternando períodos em que era extremamente atuante e outros em que ela praticamente desaparecia. Segundo o historiador William Randel, a organização chegou a contar cinco milhões de membros na década de 1920. Auge do movimento.

O Movimento Conservador Radical e o Ultraliberalismo


A partir da década de 1930, a política americana sofre outra inflexão. Com o advento do New Deal, em resposta à crise de 29, o Estado de bem-estar social americano começa a ser formado e, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, há um predomínio do pensamento progressista dentro do país.
Isso obviamente não quer dizer que não havia conservadores. As políticas sociais, de matriz keynesiana, sempre causaram desconforto. Mas o mundo acabara de passar por um desastre e eram tais medidas que estavam atenuando os efeitos da crise. Ser contra o Estado de bem-estar social seria o mesmo que perder as eleições. Portanto, as críticas dos partidos eram muito tímidas. Definitivamente o pensamento conservador estava em baixa.
Porém, o incômodo aumentava conforme as medidas progressistas avançavam. Esse desconforto criou uma demanda reprimida por alternativas conservadoras. Isso ficou evidente quando, em 1951, um jovem de apenas 25 anos, Wiliam Buckley, publicou um livro intitulado “God and Man at Yale”. O livro não trazia nenhuma teoria sofisticada, na verdade ele não propôs nada, apenas reclamava da influência do pensamento keynesiano nas universidades e do afastamento dos princípios cristãos. A publicação, contudo, rapidamente se espalhou pelo país.
O livro de Buckley é importante, pois indica alguns aspectos daquilo que mais tarde seriam as marcas do novo conservadorismo radical. Primeiro, ele foi impulsionado por jovens insatisfeitos, que, orientados por uma cultura conservadora, sentiam-se excluídos do mainstream acadêmico e não eram representados pelos partidos políticos. Essas pessoas se apresentavam como outsiders.
Segundo, o forte financiamento. A falta de base social foi compensada desde o início pelos amplos recursos que esses grupos recebiam. Os empresários compraram essas ideias desde o início, pois viram nesses jovens insatisfeitos o caminho para a desregulação econômica, que obviamente os beneficiaria.
Em 1955, o mesmo Buckley fundou uma revista para disseminar as ideias conservadoras. Como Paul Krugman mostra, estudar o início do movimento é fundamental para entender as raízes do novo conservadorismo radical. No início, os conservadores não tinham a pretensão de disputar o espaço público, mas de criar uma identidade e um pensamento coerente capaz de dar unidade aos membros. Portanto, os assuntos eram tratados sem nenhuma forma de dissimulação.
Segundo Krugman, com o tempo, os conservadores desenvolveriam uma linguagem cifrada, inalcançável para pessoas de fora dos círculos extremistas: “Hoje figuras importantes da direita americana são mestres no que os britânicos chamam de apito de cachorro: eles dizem coisas que agradam a certos grupos de modo que apenas os grupos visados possam ouvir — e de modo que os extremismos da sua posição se torne óbvio para todos. (...) Reagan foi capaz de sinalizar simpatia pelo racismo sem nunca ter dito algo abertamente racista”.
Portanto, aquilo que mais tarde se autointitularia “movimento libertário”, que pregava uma política ultraliberal, desde a sua fundação estava próximo dos grupos racistas e autoritários. Nas páginas da National Review, por exemplo, há referências à superioridade da raça branca e elogios a ditadores, como o general espanhol Francisco Franco. “A comunidade branca do sul tem o direito de adotar as medidas necessárias para prevalecer, política e culturalmente, em área onde não predomina numericamente? A resposta sensata é sim. A comunidade branca tem o direito porque é a raça superior”. “O general Franco é um herói nacional. É amplamente admitido que ele, acima de outros, reunisse em si, a combinação de capacidade, perseverança e senso de justiça” (ambas as citações são da revista National Review e foram retirados do livro “A Consciência de Um Liberal”, do economista Paul Krugman).
A origem do “libertarianismo” (ou “anarcocapitalismo”) estadunidense, portanto, não está na luta contra a opressão, como alegam os adeptos da ideologia, mas no esforço de resgatar o modelo aristocrático de sociedade, que estava sendo abalado pela social democracia.
Essas são as afinidades entre os velhos conservadores racistas e o novo conservadorismo ultraliberal. Como a revista El Coyote mostrou, um dos fundadores dessa corrente, Murray Rothbard, além de racista e de defender a separação das raças, era admirador de David Duke, político ligado à KKK.
A contradição é apenas aparente. Como dissemos no início deste texto, o conceito de liberdade é plástico e pode esconder formas de coações. A santificação do mercado substituiu o racismo no discurso conservador. Os autointitulados “libertários” — cujo termo foi tomado dos anarquistas, admitido pelo próprio Rothbard; e que por tal razão passaremos a chamar de ultraliberais, termo mais apropriado para o que de fato sua ideologia significa — não idealizam o passado como os conservadores tradicionais, mas o futuro. Ou melhor, um futuro possível desde que as forças econômicas possam agir livremente.
Essa é a realidade metafísica dos ultraliberais. Se o mundo está longe do ideal é porque há uma conspiração que impede que tal modelo seja concretizado. Tal conspiração viria da “esquerda”, dos “keynesianos”, dos “marxistas”, dos “fascistas” e dos “totalitários”. Esses conceitos são arrancados do seu sentido original e empacotados sob o rótulo de “coletivismos”. São os coletivistas os responsáveis pela degeneração dos valores e pelo atraso econômico. Como podemos perceber, não estamos muito longe da mentalidade conservadora tradicional.
Como o economista André Guimarães Augusto destacou, os efeitos da política “libertária” são opostos à liberdade. Os ultraliberais defendem a propriedade privada como o único direito inalienável, sendo inclusive entendida como uma extensão do corpo individual. Ora, pessoas não possuem os mesmos bens, há ricos e pobres. Portanto, os indivíduos não seriam iguais, haveria aqueles com mais direitos. Ora, tal proposta nada mais é que uma representação de um modelo aristocrático de sociedade.
Segundo Murray Rothbard, as posses individuais seriam expressão da superioridade moral dos indivíduos. Eu poderia lembrar que ladrões também enriquecem; mas o objetivo não é discutir o pensamento desse autor, que tem mais furos que uma peneira, e sim as semelhanças entre os ultraliberais e os antigos conservadores. Assim, limito-me a destacar que esse argumento não está muito distante do conservadorismo tradicional, seja o racista, que pregava a superioridade moral da raça branca, seja o religioso, ou seja, da ética puritana da predestinação.
Rothbard chega a defender a escravidão como forma de pagamento de uma dívida. Segundo o autor, o direito a propriedade estaria acima da liberdade individual. Ora, era justamente esse o argumento dos defensores da escravidão no século XIX, que defendiam o direito individual de ter escravos, afirmando que o Estado não poderia intervir no direito à propriedade.
Foi tal embate que iniciou a Guerra Civil. Os estados confederados queriam a secessão justamente para ter o direito de legislar sobre o trabalho compulsório. Era essa a liberdade que os conservadores defendiam. Entenderam agora o motivo de tanta briga em torno da figura do general Lee? Os racistas admiram Lee pela defesa da escravidão; os ultraliberais, porque ele, “teoricamente”, lutou contra a “opressão” do Estado.
Como veremos, uma das estratégias desses grupos é a manipulação do passado para dar sentido teleológico às suas ideias. Se o pensamento ultraliberal é infalível, a realidade não pode desmenti-lo. Assim, há dois caminhos: ou recusa-se o método empírico (como fazem os ultraliberais da escola austríaca), ou constrói-se uma narrativa alternativa do passado, à imagem e semelhança da teoria.
Algumas pessoas chamam esse movimento de revisionismo. Este termo não é correto, pois eles não produzem uma interpretação alternativa, mas uma falsificação grosseira. Os Guias Politicamente Incorretos que viraram moda nos EUA, e recentemente chegaram ao Brasil, são o exemplo mais conhecido desse esforço.
Enfim, o discurso ultraliberal reafirma os valores conservadores para justificar o modelo social aristocrático.
Após construírem um corpo teórico coerente e de fácil assimilação, ainda faltava o segundo passo. Conquistar uma base social sólida e concorrer nas eleições. Em 1964, o movimento conservador radical assumiu o controle da convenção republicana. A candidatura de Barry Goldwater foi um fracasso eleitoral, mas eles aprenderam uma maneira eficiente de se comunicar com a população. Ronald Reagan, famoso ator e galã de cinema, e que futuramente seria eleito presidente pelo Partido Republicano, fez um discurso na televisão para a campanha de Goldwater. Nele, Reagan usava pela primeira vez uma estratégia que seria a marca desses grupos: a manipulação estatística para dar um falso embasamento científico às suas afirmações.
Os conservadores também passaram a financiar intelectuais para construir uma narrativa alternativa que, não raro, beirava o delírio. Milton Friedman foi um dos primeiros a iniciar essa tarefa. Para defender o liberalismo, seria necessário livrá-lo do seu maior carma, a Crise de 29. Nos anos 1960, Friedman desenvolveu uma interpretação para a Grande Depressão. Nela, o governo era apontado como o grande responsável pelo colapso. Segundo Krugman, tal afirmação beirava a desonestidade intelectual, mas não importava — não era a verdade que eles estavam buscando.
Nas décadas seguintes, os já referidos “Guias Politicamente Incorretos” dominariam o mercado editorial e massificariam tais ideias. Como Krugman destaca, os primeiros intelectuais ultraliberais, como Friedman e Kistrol, eram acadêmicos respeitados, que, antes de virarem propagandistas, construíram uma carreira sólida. Esse “pré-requisito” seria logo descartado. A ideia era simplificar e massificar. Discursos rebuscados teriam pouca utilidade. Ser conservador se tornou um ótimo negócio para intelectuais medíocres, que viam no pensamento ultraliberal a maneira de construir sua carreira e de lucrar com ela: “tornar-se um intelectual conservador passou a ser uma boa manobra para a carreira”. (Krugman).
A disseminação dos chamados think tanks também era parte do projeto. Estas instituições nasceram como centros de estudos. Após a década de 1970, elas começaram a adotar técnicas de marketing e a serem centros de propaganda do ultraliberalismo. Think tanks conhecidos atualmente, como a Heritage Foundatione o Cato institute, iniciaram suas atividade nesse período.
Nomes, antes esquecidos, como os do economista Ludwig von Mises, da “filósofa” Ayn Rand e do já citado Murray Rothbard foram resgatados do anonimato e alçados à categoria de grandes pensadores. As escolhas não foram ao acaso. Além de serem radicais, ao contrário dos rebuscados Milton Friedman e Irving Kristol, tais autores possuem um pensamento simplista, de rápida assimilação. Ideal para a massificação.
Enfim, há laços estreitos entre os chamados libertários e os antigos conservadores. E o ponto de convergência é justamente a defesa de uma sociedade aristocrática. Como vimos, a estrutura mental desse ultraliberalismo é essencialmente fundamentalista. Eles trabalham com a noção de verdade e possuem um adversário claramente identificável. O movimento conservador, portanto, deu nova vida ao extremismo americano. Mas ele, sozinho, não explica o atual recrudescimento da extrema direita. Para isso, é preciso olhar para fatos mais recentes.

Globalização e Recrudescimento do Conservadorismo


O início do século XXI é o auge desse processo iniciado nos anos 1950. Com a globalização, a informação passou a circular em ritmo acelerado. Logo os think tank ultraliberais, que antes precisavam disputar espaço nos jornais e revistas, tomariam conta das rede sociais com páginas próprias. E formando uma geração de jovens acríticos. Mas esse não foi o fator mais importante.
A atomização do sujeito e o individualismo exacerbado criam as condições adequadas para a proliferação do radicalismo. Esse fenômeno já vem sendo alertado há algum tempo por analistas mais sofisticados. Em 2010, portanto seis anos antes da vitória do republicano Donald Trump, o historiador Tony Judtescreveu: “As populações que sofrem com a crescente insegurança econômica e física se refugiarão nos símbolos políticos, recursos legais e barreiras físicas que apenas um Estado territorial pode oferecer”.
Durante muito tempo, o fascismo foi mal compreendido. O “totalitarismo” não advém do suposto agigantamento do Estado. O fascismo é um fenômeno que vem de baixo, das massas. Não é o governo que cresce até se tornar totalitário, mas o movimento que se espalha até tomar as rédeas da política. E isso ocorre no momento em que os homens percebem a sua fraqueza frente às vicissitudes da história.
O atomismo deixa o indivíduo vulnerável ao discurso fascista. A validade dessa afirmativa pode ser observada claramente no caso alemão. Os nazistas receberam um expressivo número de votos dos trabalhadores. Porém, diversas pesquisas têm demonstrado que os operários que haviam ingressado no nacional-socialismo eram justamente aqueles que não estavam sindicalizados e, portanto, mais vulneráveis aos efeitos negativos da crise econômica. Nos locais em que havia organização sindical estruturada, a resistência ao extremismo foi maior.
Outro fato fundamental para a compreensão da dinâmica do fundamentalismo é o que os nazistas chamavam de Lebensraum, ou seja, espaço vital. Essa acepção pode ter dois significados: o “espaço vital” pode ser tanto físico (área necessária para o desenvolvimento de um povo) quanto metafísico (relativo às condições necessárias para a reprodução de uma cultura ou de um modo de vida). A primeira acepção era muito forte no nazismo, por isso a política expansionista do Reich. No caso dos EUA, o segundo sentido também tem mostrado a sua força para impulsionar o fanatismo.
Desde os anos 1980, a fecundidade da população americana está em queda. Essa defasagem está sendo preenchida pela imigração. Em outras palavras, o percentual de brancos na população está caindo. Para os racistas e conservadores, esse fenômeno significa a decadência do país.
A “raça superior”, que desde o pacto do May Flower estava destinada a construir a maior potência mundial, está perdendo o controle para os povos “bárbaros”. Trata-se, portanto, de algo além do mero preconceito, trata-se de uma “luta pela sobrevivência”, de um “espaço vital capaz de preservar uma cultura superior da decadência trazida pelo multiculturalismo”. E claro que tais percepções são aguçadas em momentos de crise.
Esse era o sentido do discurso de campanha de Donald Trump. O republicano dizia que iria fazer a “América grande de novo”. Em vários comícios a palavra “grande” foi substituída por “branca” e o sentido das duas se confundia. Fazer a América grande era fazer a América branca e vice-versa. Era a este fato que os radicais de Charlottesville se referiam quando afirmavam que chegara o momento de cumprir as promessas da campanha.

Considerações Finais



Vou iniciar essas considerações finais apontando um erro proposital. O título deste artigo é um engano(NOTA DO BLOG: refere-se ao título original). Ele foi construído de forma maliciosa para chamar a atenção do leitor. O título correto seria: História da Extrema Direita Americana: da escravidão à escravidão.
Como vimos, o pensamento ultraconservador americano é muito diverso. Porém, há uma linha de coerência entre essas correntes: a defesa de uma sociedade aristocrática. E a raiz desse pensamento está na escravidão.
Paul Krugman concorda com essa hipótese: “uma mensagem chave e que muitos leitores podem achar incômoda, é que o conceito de raça está no âmago do que aconteceu no país em que cresci. O legado da escravidão, o pecado original americano, é a razão de nós sermos a única economia avançada que não garante assistência médica a todos os cidadãos”.
De fato, a mensagem do economista toca e incomoda. O país em que nós crescemos é muito diferente do dele, mas a escravidão também está no âmago da nossa cultura política. Isso ajudaria a explicar o motivo do pensamento ultraliberal ter tido tanta aderência no Brasil e ter provocado tanta fascinação.
Há cem anos, Joaquim Nabuco escreveu: “Não nos basta acabar com a escravidão; é preciso destruir a sua obra”. A estátua do general Lee era uma reminiscência da “obra da escravidão”. Por isso, ela suscitou paixões e ódios. Lutar contra esse passado é uma missão política e ética que precisa ser perseguida por aqueles que querem um mundo mais justo. Tanto lá quanto aqui, tal tarefa permanece inconclusa. Derrubar os monumentos que glorificam um passado bárbaro é uma medida importante, mas sozinha ela não basta. O caminho é longo, mas devemos continuar em frente, a despeito daqueles que recusam-se a aceitar o fim da escravidão.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

CIRO: "Com Haddad, seria o dream team. Ele representa o que há de melhor no PT e não carrega o estigma que é, em parte, injusto

Ciro Gomes está em plena pré-campanha rumo às eleições presidenciais de 2018. Agora abrigado no PDT, o ex-ministro e ex-governador do Ceará preenche sua agenda com debates em universidades e visitas a meios de imprensa, tudo para criar, ele diz, uma "corrente de opinião" capaz de levá-lo ao posto de candidato preferencial do campo progressista —de preferência sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no páreo. Numa tarde de junho, o pré-candidato recebeu o EL PAÍS em seu apartamento no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, por mais de duas horas. Jamais perdeu o pulso na conversa em que não faltaram defesas detalhadas de seus planos de reindustrialização e reformas nem suas típicas diatribes. Os alvos foram o prefeito de São Paulo, João Doria, ambientalistas "aproveitadores" e, emulando o líder histórico do seu atual partido, Leonel Brizola (1922-2004), a TV Globo. "Vou fazer 60 anos em novembro. Veja que não me apeguei aos 59. Tenho felicidades. Eu sou um cara feliz", disse o ex-ministro, que só se queixa da distância do filho temporão. Gael, com pouco menos de dois anos de idade, segue no bastião político dos Gomes, o Ceará.

Pergunta. Oficialmente candidato à presidência em 2018?
Resposta. Não, oficialmente não, porque só na data própria o partido vai formalizar. Estou pedindo para as pessoas não me ouvirem como possível candidato porque um candidato tem que expressar a média da sua coalizão e esta hora agora é de livre pensar. O que se impõe é tentar criar essa corrente de opinião. Escrever, formular, procurar essa inteligência do país. Sou signatário dessa iniciativa de Bresser Pereira chamada Brasil Nação, de discutir o projeto nacional de desenvolvimento, com base numa retomada da industrialização do país. Trabalhamos os preços centrais da economia, câmbio, juros, tributos, margem de lucro das empresas médias e o que fazer para coordenar de uma maneira proativa o desenvolvimento substituindo a prevalência do rentismo. No complexo industrial do agronegócio, por exemplo, a ideia é uma sinergia privada: 40% dos custos de produção são importados e não há razão para isso, a não ser falta de convergência. A capitalização será feita por uma coordenação estratégica que vai manipular crédito, subsídios, renúncia fiscal. E eventualmente ter uma presença setorial privatizável no futuro. A Petrobras entra com os insumos de fertilizantes, capitaliza uma empresa...
P. O que sr. diz soa parecido com os planos do segundo Governo Dilma. Por que o eleitor que está vendo tudo o que foi feito de bem e de mal em nome dessa "nova matriz econômica", incluindo suas derivações [campeãs nacionais do BNDES] que culminaram no caso JBS, deve acreditar na sua ideia?
R. Estou apelando para a inteligência das pessoas. O grande problema não foi o conceito de fazer um esforço de política industrial e de comércio exterior. O erro foi fazer ele em bases clientelistas, não orgânicas, não partilhadas com a sociedade, sem controle social e elegendo arbitrária, quando não, corruptamente, os setores privilegiados. A questão não é nacionalismo, nem patriotada. Um país como o Brasil aguenta até quando o passivo externo líquido que nós estamos vendo crescer agora em serviços? O senhor Pedro Parente [presidente da Petrobras] fez uma carta-convite para investimento no Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, afetado pela Lava Jato] para 17 empresas de construção pesada no estrangeiro. Carta-convite! Deixou as brasileiras todas fora, sob o pretexto moral de que estão enroladas em escândalo e o país vai começar a construir o passivo externo líquido agora em serviços que era positivo. Por cima de todos os erros de Dilma, de todas as grandes bobagens que ela fez, o que aconteceu mesmo foi que o passivo externo brasileiro ficou infinanciável porque o ciclo de commodities que sustentou o Lula despencou. E esse é o mesmo filme que derrubou o Fernando Henrique Cardoso. Isso é um filme claro para nós. É preciso desarmar essa bomba.
P. Então é preciso tentar de novo...
R. O grande problema do período Lula foi o caudilhismo.
P. Há quem diga que o senhor representa de certa forma isso também. O que acha da expressão “coronel esclarecido” que já ouvi ser relacionada a você?
R. Coronel por quê? Só porque eu venho do Nordeste?
P. Não, é porque sua família domina o poder no Ceará há décadas.
R. [O governador] Camilo Santana do PT é da minha família? É um aliado meu do PT apoiado por uma frente progressista formada por todos os partidos de esquerda? Quantas rádios eu tenho? Faz parte da oligarquia de um coronel. E eu tenho alguma? Nenhuma! Fui ministro da Fazenda do Itamar [Franco].  Sabe quem tem rádio lá? Oito? O Tasso Jereissati [presidente do PSDB]. E a ele não chamam de coronel, só porque ele é rico. O problema é que tem uma pequena classe média que está mandando no Ceará. O voto popular é nosso. Todo mundo intelectual, universitário, sem empresa, sem sociedade com nada. Não temos rádio, não temos TV. Você sabe qual é a educação mais qualificada do Brasil [o Ceará tem um dos maiores índices de evolução]? Você já viu oligarca investir prioritariamente em educação para preparar o espírito crítica da população? É engraçado, eu nunca vi ninguém chamando o [governador de São Paulo] Alckmin de coronel. E eles mandam aqui há 20 anos. Evidentemente que é só porque eu sou do Nordeste. Só isso!
P. Saindo da provocação, e indo para uma pergunta mais direta. Há três anos assistimos às entranhas da corrupção sendo expostas, sem cor de partido, em todos os níveis e em muitos contratos públicos. Por que o eleitor deve acreditar que você e sua família conseguem governar por esse tempo todo fora do esquema que todo mundo diz que é o único possível?
R. Isso é mentira. O mundanismo da política eu conheço. As transações, os entendimentos, as concessões, eu conheço. Mas há um limite que nos preserva que é a decência à lei. Vá ver se alguma vez eu respondi a um inquérito? 37 anos! Desde os anos 80. Já fui deputado de oposição, deputado líder de Governo, prefeito da quinta cidade brasileira, ministro da Fazenda, governador do oitavo estado do país, ministro da Integração Nacional. Manejei oportunidades importantes. Nunca respondi a um inquérito, nem sequer para ser absolvido! Isso não é vantagem nenhuma, é só minha obrigação. Mas eu tenho o direito de ser respeitado. Não fui morar no palácio. Você está aqui na casa que eu moro em São Paulo. Dá uma olhadinha se tem alguma opulência aqui, algum sintoma de apego a luxo. Eu estou morando em Santa Cecília, um lugar hipster, que eu soube agora. Mas repare, eu renunciei ao direito a ter três pensões mensais vitalícias que me dariam ao redor de 82 mil reais por mês. É a primeira vez que eu estou contando isso.

O apartamento do ex-ministro fica num prédio de classe média, em uma rua que é divisa entre a Santa Cecília, um bairro tradicional em São Paulo (revitalizado por uma população jovem que circula nos novos estabelecimentos da zona) e a rica região de Higienópolis, apelidada de tucanistão, por abrigar próceres tucanos como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ciro ri ao saber da alcunha tucana da zona e faz questão de apontar a sala com o sofá simples cor de creme, TV e consoles de videogame. Quando em São Paulo, ele divide o apartamento com um dos filhos e um sobrinho. A namorada, Gisele, assim como o filho Gael, de um relacionamento anterior, ficam em Fortaleza. O orgulho da casa são os aparelhos da cozinha, como máquina de lavar louças, que facilitam a vida doméstica do trio. "Nos Estados Unidos, eu aprendi a me virar".

P. Como você paga suas contas e a de sua família?
R. Eu ganho uma fortuna se comparado com a vida do povo. Eu cobro por uma palestra 20.000 reais líquido, mais Imposto de Renda na fonte, mais hospedagem, mais duas passagens. Eu tenho um escritório de advocacia, voltei agora. Eu estava trabalhando na CSN [Companhia Siderúrgica Nacional], mediante um salário que eu tenho até vergonha de falar. Era muito, muito dinheiro. Participação nos resultados e bônus de retenção.
P. Você se orgulha de não responder a processos por acusação de corrupção, mas Joesley Batista, na delação da JBS, acusou seu irmão Cid Gomes de ter recebido propina. Vocês dizem que Joesley mentiu. Mentiu sobre Cid, mas falou a verdade sobre outros políticos?
R. Esses caras são gângsters. Não estou dizendo que é mentira que pedimos dinheiro, mas nem foi o Cid quem pediu e não era propina. São indícios e eles que têm de explicar por que o mesmo dinheiro que deram na outra [campanha, em 2006] era propina e porque em outra campanha não era. Defendo o financiamento público de campanha desde sempre porque é o pior momento para um homem público decente se relacionar com esse tipo de gente. Acho uma aberração que o país deixe esses gângsters impunes. Para mim, deve se supor que as pessoas são inocentes, mas tem uma gravação do Aécio [Neves] conversando com Joesley em termos absolutamente chulos, pedindo dois milhões de reais e mandando a irmã ir buscar... Tem a mala entregue a Rodrigo Rocha Loures [ex-assessor do presidente Michel Temer]   Vai ver se tem uma gravação do Cid? Essa é a questão. Algumas são evidências e as outras são palavras de gângster que têm que ser postas em dúvida.
P. Acha que a imunidade dada pela Lava Jato foi um preço alto demais?
R. Claro! Esta concessão que se fez a esses gângsters é uma bofetada na cara do povo brasileiro trabalhador. A delação premiada não é troca de impunidade, não. Delação premiada é moderação da pena. Esses caras deviam ter uns 500 anos de cadeia. Que peguem 20!  [A Lava Jato] é um projeto bem-intencionado, mas em função do aplauso muito generoso, e da juventude também generosa, eles estão metendo os pés pelas mãos e estão caindo em calacradas que vão desmoralizá-los em futuro próximo. Por exemplo, como é que vão fazer com a história de Lula? Qualquer bacharel em direito, rábula olhando a denúncia sobre o Lula sabe que não dá para condená-lo. Um juiz que sai do seu universo dos autos, da sobriedade, já perdeu.

Ciro faz a defesa jurídica de Lula, mas suas chances na corrida de 2018 estão ligadas ao destino do ex-presidente. Para muitos analistas, se o petista não for proibido de concorrer pela Justiça, diminuem as chances do cearense que nasceu em Pindamonhangaba, em São Paulo, de conseguir ter uma candidatura competitiva. Por ora, Ciro ainda aparece timidamente nas pesquisas de opinião.

P. Você tem se colocado como um interlocutor interessado em assumir o timão do Brasil, mas nas pesquisas que colocam seu nome ainda não aparece um apoio considerável. Ao que você atribui isso?
R. Minha decolagem é um Estado que tem 4% do eleitorado brasileiro, diferente de quem parte de São Paulo que tem 28% do eleitorado. Se o país me identificará ou não como seu verdadeiro intérprete, eu não deixarei que as pesquisas que são pagas pelos plutocratas eliminem essa possibilidade. A CUT contrata pesquisa para o Lula, o Datafolha faz pesquisa para os tucanos e eu não pago porque é muito caro. As pesquisas publicadas pelo Vox Populi dão o Lula ganhando no primeiro turno. O Lula nunca ganhou uma eleição no primeiro turno na brilhante história dele. Vai ganhar agora? Pergunte se dois anos antes o Aécio existia nas pesquisas? As pesquisas no Brasil são tucanocêntricas desde sempre! Você pega a pesquisa da eleição anterior e estava Dilma contra o Alckmin, a Dilma contra o Serra, a Dilma contra o Aécio. Ou não é verdade isso? Agora estão botando o Doria e não trocam o Lula. Se a gente quer simular, por que não tira o Lula e me bota?
P. Qual o papel da esquerda na atual conjuntura e na disputa em 2018?
R. Nós, a esquerda, perdemos a autoridade moral, a hegemonia moral sobre a sociedade. Falo da hegemonia do PT, mas eu não posso me absolver porque eu estava lá. Não rompi, mas não aceitei mais ser ministro. Fiquei até o fim com a Dilma, porque eu também conheço o outro lado e é muito pior. Mas muito pior. A surpresa é a vulgaridade do Aécio e do Sérgio Cabral. Sérgio Cabral eu conheço desde menino. Como é que o cara troca a oportunidade de ser líder de um Estado maravilhoso como o Rio de Janeiro por vulgaridade... Nós temos que fazer uma autocrítica. Quem colocou o Michel Temer na linha de sucessão, quem empoderou o Eduardo Cunha? Eu protestei publicamente contra isso, tenho artigos escritos. Eu chamei o Eduardo Cunha de ladrão nesta distância [aponta a repórter]. Fui ao Lula: "Lula, não é possível você entregar Furnas para o Cunha. Se esse cara tiver essa grana, ele vai comprar a Presidência da Câmara". "Não, vai não… Ele está me chantageando aqui, mas não vai não..." No outro dia Cunha fez. O PT não faz uma autocrítica. Faz de conta que não está acontecendo nada. Entrega a presidência do partido para uma pessoa que está respondendo também um inquérito.
P. Mas ainda assim você não descarta uma aliança com o PT, certo?
R. Mas será nas minhas bases. O que imagino que possa acontecer e até idealizo é que o PT lance um candidato que não seja o Lula, que é o que deviam fazer. Ir para o povo, permitir que o país discutisse as coisas. Lula não é burro. Por que ele mandou tirar a candidatura dele da resolução do PT? Lula nunca ganhou no primeiro turno, nem no auge. Agora ele é preferido por uma parcela e odiado por outra. A odienta é maior do que a que o prefere. Claramente. Como é que vai o Lula em São Paulo? No Rio de Janeiro? No Sul? Tem uma coisa estranha aí. As pessoas não estão pensando em eleição, elas estão solidárias porque de fato o Lula está sendo perseguido. Essa história da Globo botar o cara todo dia… Ninguém gosta disso. Eu, por exemplo, comecei a tomar simpatia pelo Michel Temer, imagina! O que a Globo quer esculhambando o Michel Temer? Eu vou ficar do mesmo lado da Globo?
P. Aceitaria ser vice de Fernando Haddad ou o Haddad de vice?
R. Seria o dream team. Haddad representa o que há de melhor no PT e não carrega o estigma que é, em parte, injusto.
P. Com qual partido não se aliaria?
R. O PMDB.
P. Com tanto descrédito na política, não há espaço para um novo partido, um novo movimento, um Macron brasileiro?
R. O Macron sou eu. É só olhar. O cara era do Partido Socialista, ministro de Hollande. De repente, com um conjunto de desgastes, sai e cria um movimento. A questão do Brasil é falta de hegemonia moral e intelectual. Nós não vamos inventar uma nova classe política, apesar do despotismo esclarecido e dessa imprensa que não tem compromisso nenhum com nada.
P. Se você consegue passar pela barreira da conquista do voto popular, como é que governa num Congresso em que se repetisse esse modelo mais conservador, a bancada BBB [boi,bala,Bíblia], um grande PMDB...
R. Não é verdade que o problema do Brasil seja o Congresso. Qual foi a proposta de reforma que o senhor Fernando Henrique fez que o Congresso não deixou? Resposta: nenhuma. Qual foi a proposta que o senhor Luiz Inácio propôs ao Congresso? Tirando a da tomada de três pinos...
P. Os dois fizeram reforma da Previdências que agora vão ser refeitas..
R. Estou perguntando qual foi a reforma estrutural que o Lula propôs e que o Congresso não deixou passar? Nenhuma. Isso quer dizer que o Congresso não é um problema? Não. O Congresso é um problema como é da natureza de impasse do presidencialismo. Como lida com isso? Aí em meu socorro vem a história brasileira: 100% dos presidentes, mesmo eleitos nesse contexto de impasse potencial, tiveram maiorias quase unânimes nos seis primeiros meses de governo. Todos! Fernando Henrique teve todo o poder do planeta na mão. Lula, no primeiro momento, teve o poder do planeta inteiro na mão. Não propuseram nada. Trocaram os riscos normais de uma reforma que o país precisa por microprojetos de poder. Presidencialismo de coalizão, esse nome pomposo, é uma impostura, que tem dois motivos: medo de CPI e usurpar o tempo de TV, para não deixar o adversário falar. Se você fizer uma política de governadores, de criar organicidade nesse primeiro mágico momento e propuser no primeiro as coisas, tentando mediar como o chefe de Estado os conflitos, a chance de passar se maximiza. Não estou dizendo que é fácil, mas se maximiza. E na permanência do impasse, o Brasil tem que chamar o povo para plebiscito e referendo. E pronto. São só essas duas reformas: fiscal e política.
P. E a reforma política? Iria a referendo?
R. Eu defendi a lista fechada e o financiamento público de campanha. Sendo que a lista tem que ser construída não por burocracias partidárias, mas com todos os convencionais sendo obrigados a votar para hierarquizar a lista. Isto é o ideal para um país como o nosso. Porém, agora eles estão propondo para livrar a cara dos picaretas da Lava Jato. Então eu estou contra as minhas ideias. O cara que era eleito numa institucionalidade é chamado a mudar essa institucionalidade? Você está chamando o cara para se suicidar politicamente. Ele não vai fazer isso nem que ele seja um deputado sueco. Então é preciso, em nome do bem público, que você tenha paciência e bote [a reforma] para entrar em vigor daqui a três eleições. Toda reforma política que acontece é para manter no poder quem está lá. E a atual é o seguinte: é para sobrevivência.
P. E a reforma da Previdência? Nesse Governo passa?
R. Não creio que passe. A questão da Previdência é um assunto relevante, estratégico no mundo, e no Brasil, especialmente porque nós ainda temos a janela demográfica de uns 10, 15 anos para resolver isso. Repare que nosso problema não é que a Previdência Social hoje tenha um déficit. Por isso que eu falo de reforma fiscal, que é tributária e previdenciária e elas duas estão casadas. Não pode falar uma separada da outra. Confiamos em debater com franqueza e passar a bola para o povo resolver. Eu estou me vendo na televisão: “Negada, é o seguinte: querem deixar para os filhos uma dívida ou uma poupança? Então agora eu vou chamar um grande debate em que nós vamos discutir”. Vou propor um regime de capitalização novo, novinho em folha, cujo desafio é a transição mas eu não vou deixar o desafio da transição me impedir de ajudar o povo a entender que o passo que nós precisamos dar é esse.
P. Onde tem o modelo similar no mundo?
R. No mundo inteiro. Ninguém mais tem regime de repartição. A grande questão é se é pública ou privada.
P. No Chile deu errado a previdência privada.
R. No Chile deu errado, portanto não pode ser privado.
P. E a reforma tributária, seria profunda?
R. Profunda! Eu tenho um modelo tributário que vai desonerar investimento, vai sobreonerar a retenção especulativa de propriedade e de capital intergeracional e lucros e dividendos contemporâneos, vai ser criada uma CPMF [contribuição provisória sobre movimentação financeira] transitória com alíquota partilhada: 0,38% com Estados e municípios para vincular ao serviço da dívida para entrar numa trajetória de queda consistente. Vou criar uma receita safadamente extraída da operação financeira com limite de 2.000 reais de isenção mensal para todo mundo. E daí para cima 0,38% totalmente vinculado ao serviço da dívida.
P. Você fala “criar uma CPMF acima de 2.000 reais...” Você já sentou com o Itaú, o Bradesco para explicar sua proposta? Porque se você não ganha este apoio do capital...
R. Então nós não temos uma democracia. Vamos perguntar ao doutor Roberto Setubal [presidente do Itaú] o que ele quer para mandar fazer e acabar com essa farsa. Todo esse negócio de entrevistas... isso dá um trabalho imenso. Eu sou um democrata visceral, se eu não acreditar, não faz sentido o que estou fazendo. Eu não durmo dois dias em nenhum lugar há anos. Tenho um filhinho de 1 ano e 6 meses, a coisa mais linda do planeta! Fico com ele e fico pensando "por que eu vou sair na rua, meu Deus do céu? Vou fazer o que na rua?". Mas eu digo "vai pra rua porque você não pode ficar cuidando do seu filho. Tem um monte de filho morrendo aí'. Aí ninguém acredita, fica todo mundo cético, todo mundo cínico, todo mundo frio. Eu, não! Eu sou apaixonado!
P. Então são os primeiros seis meses de conflito e impasses se for para resolver as coisas?
R. Seis meses de política quente, não é conflito, não. É uma dinâmica de entendimento. Aí a gente faz como? Deixa o povo fora, protestando na rua, sendo enfrentado por bala perdida ou chama todos? O conflito existe. O que é que eu quero fazer? Sistematizar o conflito e tentar uma solução civilizada, inclusive com transições. Veja bem, não é possível que o cara tenha sido governador do Estado, sendo mais popular do país, seja confundido com esse malucão que adora brigar.

Ao citar a imagem de "malucão" Ciro Gomes luta contra seu próprio estigma: o de peixe apaixonado pela própria boca. Sua verve ferina e ágil, uma de suas marcas, é responsável por seu sucesso recente nas redes sociais com páginas não oficiais como a Cirão da Massa, que coleciona seus melhores momentos em palestras e entrevistas. Por outro lado, as palavras fortes e frases de efeito não só contra adversários, mas também direcionadas a potenciais aliados, como Lula e Marina Silva, são mostra que boutades têm seus custos.

P. Tocando neste ponto, você falou em uma entrevista que ouviu de Caetano Veloso uma análise de que você se suicidou, metaforicamente falando, na campanha de 2002, com declarações desastradas. Está preparado para não fazer o mesmo agora?
R. Eu nunca aceitei me embrutecer. Começou a se desenhar a possibilidade de eu ganhar a eleição contra o PSDB e contra o PT nunca testado ou seja, eu ia sofrer o diabo! Vocês não imaginam o que era aquela campanha...
P. O Brasil está um pouco traumatizado com o estilo de liderança da Dilma...
R. Quem te disse isso? Você está falando pelo Brasil com que autoridade?
P. Falarei por mim. Como jornalista que acompanho e conheço pessoas que trabalharam na máquina durante o Governo Dilma, havia uma queixa sobre o estilo da presidenta, centralizador. As pessoas têm direito de pensar sobre o temperamento de seu líder. Você fala de erros do passado, mas há vídeos em que você, por exemplo, se indispôs com pessoas em palestras. Há uma espécie de temor de que você prefira a piada a perder o amigo ou o eleitor.
R. Você acha mesmo que isso tem qualquer centralidade na cabeça de qualquer eleitor do Brasil? Sabe quem está em segundo lugar nas pesquisas [Bolsonaro]? Se alguém for me chamar de destemperado, eu vou dizer: "Então compara aí porque não pode usar a mesma palavra".
P. Você usou palavras fortes com o prefeito de São Paulo, João Doria.
R. Você está dizendo qual? Essa que ele inventou?
P. Um palavrão envolvendo "areia", conforme registro da imprensa [ele foi acusado de ter dito “Eu pego um viado cheio de areia no c.., que nem o Doria, e encho de porrada”, segundo noticiou-se à época].
R. Pois é. Eu jamais disse nada parecido. Porque isso é completamente estúpido e me põe em desvantagem moral com ele. O que eu digo dele é que ele é um farsante que eu conheço desde que foi escorraçado da Embratur por fraude. Eu digo que ele é um rico que enriqueceu pelo lobby. Milionário que tem jatinho, que anda para cima e pra baixo e não tem uma roça. Nunca produziu um pé de nada, não tem um comércio, um balcão de comércio. Não tem nada. Não tem uma indústria, nunca produziu uma ruela. De onde é que vem essa fortuna? No Ceará se diz assim no popular: "quem não rouba nem herda enrica é merda". E o Doria é isso! É um farsante que enriqueceu fazendo lobby. E lobby com dinheiro público do PSDB de Minas, do PSDB de São Paulo, do PSDB de Goiás. E ele agora está subornando o centro da imprensa brasileira e vai reinando. Mas não dura um ano. Foi isso o que eu disse dele. Aí aproveita a fama do cara, bota umas palavras na boca dele e fica crível. Aí vem uma jornalista respeitável do EL PAÍS, vai lá e acredita que é verdade e repete...
P. Estamos perguntando para lhe dar a chance de falar.
R. E eu estou respondendo, mas eu já disse que nunca falei isso. Um milhão de vezes. A imprensa brasileira quis fechar o site de vossas mercês. A imprensa brasileira foi na Justiça fechar o site de vossas mercês aqui presentes . E vocês são corporativas a esse ponto?
P. Não somos corporativistas, é por isso que estamos aqui.
P. Um dos motivos pelos quais a polêmica reverbera é porque há dúvidas em uma esquerda chamada identitária, os grupos LGBT, feministas, por exemplo, que não se sente representada no seu discurso e na sua plataforma de governo. O que você tem a dizer a eles?
R. Por quê? Eu sou um estadista! Eu me esforço para ser um estadista. Eu não quero ser um esquerdista guru de costumes. Percebi de um tempo para cá que um presidente da República não é um guru de costumes. Muita gente boa me alertou disso. Qual é minha opinião sobre a união homoafetiva? Considero justa toda forma de amor para usar o verso do grande Lulu Santos. E a comunidade LGBT do Ceará me conhece de perto. Muito de perto. Muito. Apoio financiamento para concurso miss gay, tudo! Zero problemas! Muito recentemente fui num show lá numa boate gay, maravilhoso.
P. Mas a gente está falando de política de Estado, de apoio à comunidade LGBT, não estamos falando de…
R. ... Repare bem, por isso que eu estou citando o Ceará eu acho que falar hoje no Brasil e merda é a mesma coisa. Eu acho que tem que dar exemplo. Então é o seguinte: o cara é homofóbico? Vamos ver a vida dele, a prática. Nunca falei nada. E a intenção é essa. Claramente. Lá atrás o Duda Mendonça criou essa mesma coisa. Isso é o PT. O PT criou a onda comigo com negro. Até lisonjeiro hoje em dia, antes eu me aborrecia muito, mas do jeito que está... Alckmin respondendo porque o cunhado levou dinheiro em sacola, Serra respondendo por 50 milhões na conta dele no estrangeiro. Aécio, coitado, dispensa comentários, Lula respondendo pelo que está respondendo e eu sou acusado de que?
P. Estamos perguntando sobre plataforma de Governo, não estamos falando em ser guru de costumes…
R. O meu Governo será protagonista de uma cultura de tolerância, de respeito à diversidade, de agasalhar as pessoas sofridas. Considera que o corpo da mulher a ela pertence, não é assunto de Estado, portanto o aborto é uma questão de saúde pública. Agora, eu, por exemplo, sei da importância estratégica da Igreja Católica e, mais recentemente, da crescente igreja neopentecostal, na solidariedade com os pobres, com o qual tenho total afinidade. Eles aderiram aos protestos contra esses retrocessos anti-povo. Mas eles são violentamente contra esses assuntos e eu quero ser presidente do Brasil. Então eu tenho que respeitar essas coisas. O presidente tem que ser média. Eu estarei nesta média pendendo para a tolerância, para o respeito. Em nenhuma possibilidade normatização no meu Governo prosperará estigmatizando seja quem for, seja por qual diferença for. No meu Governo na Prefeitura de Fortaleza, 50% dos secretários eram mulheres, quinta capital do Brasil. No meu Governo no Estado do Ceará, metade dos secretários eram mulheres. Pergunta qual governante nesse nível fez isso na história brasileira? Quer trocar por futrica? Troca. Isso é democracia.
P. Você está vacinado para as armadilhas de campanha?
R. Tenho pensado muito ultimamente no Churchill, conheço as biografias dele todas e o considero o maior homem do século 20. Apesar de conservador, era um visionário. Aguentou a barra contra o Hiltler muito tempo. Ele dizia que um político reclamar da imprensa é como marinheiro reclamar do mar e isso eu aprendi. Vai ter paz? Não. Um cara que pensa o que eu penso, que fala o que eu falo, que tem os antagonismos explícitos que eu tenho está condenado ao pão que o diabo amassou na transição e especialmente na governança. Por isso que estou imbuído que eu vou para fazer história. Vou para quebrar ou ser quebrado.

Ciro Gomes diz que, em sua plataforma de candidato, "o meio ambiente é uma premissa, a sustentabilidade é uma premissa", mas chama de "simplificações grosseiras" e até de "papo furado que europeu adora" críticas a projetos como a controversa usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. As críticas também alcançam a sua ex-colega de gabinete no Governo Lula e ex-candidata presidencial Marina Silva.

"A Marina quer ser presidente do Brasil satanizando o agronegócio e a mineração que são os setores que, nos números da vida brasileira, são os que carregam o Brasil nas costas. Isso quer dizer que a gente autoriza eles a depredar o meio ambiente, a fazer matança de índio, a ter trabalho semiescravo? Claro que não", diz Ciro. O pré-candidato, que celebra ter trazido para política o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e ter tido os votos de Jair Bolsonaro e da senadora e líder ruralista Kátia Abreu em 2002, defende que é possível trazer o agronegócio "para um modo civilizado". "O meu projeto se sustenta em quem trabalha e produz. Essa é aliança que eu sonho. Esse agronegócio de hoje é tudo gente que era pobre ontem, que enriqueceu trabalhando, produzindo, com subsídio do Estado, com biotecnologia provida pelo Estado e que são anticomunistas pelo pavor de que alguém tome o que eles conquistaram."

O ex-ministro da Integração Nacional de Lula argumenta que a energia hidráulica é a solução mais barata e limpa para gerar energia no Brasil e, ante críticas sobre megaobras como Belo Monte, diz que a localização delas era intransponível. Já os custos socioambientais, com deslocamentos populacionais, impactos ao meio ambiente e reação de comunidades indígenas, ele considera sobrevalorizados. "Esses aproveitadores inventaram isso. Toda vida que o Governo brasileiro vai fazer um projeto que tem que ser feito em nome do coletivo, querem resolver problemas específicos de natureza social, econômica, onerando esses custos, que vai para as tarifas."

O pedetista se disse a favor do pacto mundial contra o aquecimento global, mas estabeleceu hierarquias. "No meu Governo, o meio ambiente é uma premissa, a sustentabilidade é uma premissa, mas eu não aceito simplificações grosseiras como eu não aceitei no São Francisco que está aí viável." O ex-ministro lembrou seus embates com a colega de ministério Marina Silva durante a discussão do projeto de transposição de águas do rio São Francisco na década passada. "Ela encheu os olhos de lágrimas", contou ele, descrevendo reunião em que a ministra defendeu estudo sobre o impacto da obra na população de peixes da bacia. "Ictiofauna, uma das discussões que a Marina me impôs. Como se perde tempo nesse país", disse. Eu disse: "Marina, o povo morrendo de sede em seca extrema, o gado morrendo, o pessoal vindo para São Paulo para se humilhar em viaduto e tu preocupada com suruba de peixe?"

Tanta virulência com Marina não a afasta como interlocutora nos projetos de Ciro de ser o Emmanuel Macron brasileiro? "No meu projeto de país, a Marina é uma interlocução respeitabilíssima. Eu estou forçando a mão. Eu mencionei a Marina porque ela não pode, com o peso que ela tem, com a excepcionalidade que ela tem, onde há pouquíssimos brasileiros minimamente respeitáveis pela população, jogar o Brasil nessa aí, de que a solução nossa é um moralismo de guela, um ambientalismo difuso. Provoco a Marina porque respeito, porque quero bem. Concordar com ela? De jeito nenhum."

El País

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quinta-feira, 13 de julho de 2017

rock e conservadorismo

O impacto do rock desde sua criação vem da transgressão, da subversão, do desafio ao status quo e da intensidade emocional de misturar realidades e expectativas. A ambiguidade sexual, a revolta política e a mistura de raças e nacionalidades transformavam o que poderia ser apenas um novo gênero musical – com raízes idênticas em realidades distintas (o blues e o country, as duas metades que até hoje simbolizam os Estados Unidos) – em uma febre global. Baixo, guitarra e bateria equilibrando frases elétricas e refrões em forma de hino fizeram esta novidade norte-americana se espalhar pelo planeta à medida que a adolescência ganhava voz pela primeira vez na história.
Mas ao tornar-se clássico, o gênero passou a cultuar símbolos e uma mitologia que aos poucos engessou suas principais qualidades para firmar seus holofotes apenas no ego dos artistas. Logo o astro do rock era mais importante que sua mensagem e aos poucos as premissas que metamorfosearam o gênero musical numa transformação comportamental foram envelhecendo com seus primeiros protagonistas, que perderam o viço da juventude e tudo de bom e de ruim que os relacionava àquela faixa etária. Aos poucos a música eletrônica, o hip hop e uma nova vanguarda foram suprindo aquela necessidade de extravasar que antes era proporcionada pelo gênero. O rock foi se transformando em algo reacionário, reativo e eminentemente conservador – autocelebratório e machista, indulgente e preconceituoso, intolerante e caricato. Até o indie rock – versão alternativa para esse rock dito clássico – repete tais erros.
Este retrato, no entanto, é impreciso. Talvez pelo excesso de atenção em alguns dos grandes vendedores de discos do passado, o gênero passe por esse envelhecimento grotesco, mas ele não mostra as transformações que eventualmente vão sendo propostas por artistas mais novos* ao longo do tempo. Pelo menos até a ultima década do século passado o rock se renovou e se reinventou, se dividindo numa impressionante miríade de subgêneros que prestaram maior ou menor tributo à tradição que os antecedeu, mas garantiram ao gênero o frescor da novidade - o grunge, por exemplo, é um herdeiro direto do punk, com influencias do metal e do chamado "indie rock', mas foi também um sopro renovador que varreu das paradas de sucesso o rock de arena ndas bandas de metal “farofa”. Já o Black metal norueguês não parece ter nenhuma conexão com a musica de Chuck Berry - embora tenha. O Punk que, por sua vez, foi uma reação à acomodação e à pompa progressiva da década de 1970, um retorno visceral às raízes primordiais numa nova linguagem, visceral e radicalmente contestadora – muito embora um de seus artífices, o guitarrista Johnny Ramone, fosse um conservador assumido.  
Ao longo do tempo tivemos novas gerações desconstruindo o formato estabelecido entre os anos 50 e 60 e reinventando um rock que muitas vezes transcende sonoridades estabelecidas e desafia as expectativas. Acho, portanto, extremamente reducionista a afirmação que muitos fazem hoje em dia nas redes sociais de que o rock é “conservador”. Que rock? Para cada Ted Nugent, Lobão ou Roger do Ultraje a Rigor sempre tivemos e quero crer que ainda temos um Ian McKaye, um Tom Morello ou um Rodrigo do Dead Fish. Para cada encontro de Elvis com Nixon, um show arrebatador dos Stooges ou do MC5.
Na cacofonia das redes sociais, "o rock é conservador" é apenas mais uma sentença de impacto imprecisa e equivocada. Em sua essência, nunca foi. Foi o gênero que fez cair as barreiras raciais, ao mesclar a musica dos brancos e dos pretos numa coisa só, se desdobrando e se reinventando infinitamente ao longo do tempo e servindo de trilha sonora para levantes culturais revolucionários, como o hippie e o punk, dentre outros. Algumas correntes, como a do Heavy Metal, talvez sejam realmente mais fechadas em si mesmas, avessas a novidades, mas isso acontece muito mais por um instinto de preservação “tribal” que por reacionarismo político e/ou comportamental. Mesmo assim o contato com a diversidade cultural do mundo real acaba acontecendo e também ele, o Heavy Metal, evolui e se torna mais dinâmico e multifacetado, se desdobrando numa infinidade de subgêneros – Death, thrash, grind, doom, gothic, etc.
Em vez de “reacionarismo” o que eu noto, atualmente, é uma grande estagnação estética e criativa: na primeira década do século XXI o mundo do rock nada fez além de se autocanibalizar em novas bandas com sonoridades datadas e derivativas. De uns dez anos pra cá, nem isso. Um verdadeiro deserto. Mas isso se deve, a meu ver, à própria característica fragmentária do mundo em que vivemos, eternamente imerso num oceano infinito de distração do qual é necessário um esforço tremendo para submergir.
Criar algo realmente novo, este é o grande desafio.
*Até aqui por Alexandre Matias
A.
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terça-feira, 11 de julho de 2017

A Fome voltou.

Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma série de reportagens que viria a ser premiada. Marcelo Canellas e Lucio Alves apresentavam a “Fome no Brasil”. O dado revelado era que uma criança morria de fome no Brasil a cada cinco minutos. Em pleno “milagre neoliberal”, como gostam de citar alguns intelectuais e políticos de direita no Brasil, uma criança morria a cada cinco minutos no Brasil. Vou repetir, porque penso que o número deveria ser usado em qualquer discussão sobre política e economia de agora em diante. Ao começar a ouvir qualquer argumento dos defensores desta hipocrisia de direita, pare e escreva “em 2001, aos sete anos do governo FHC, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil”. Repita ou escreva, não importa, mas sempre comece por esta informação. Em seguida, olhe a ginástica retórica que o interlocutor fará e avalie se ela se encontra no campo da ignorância ou da mácula moral insanável. Qualquer das duas opções, é uma conversa que não vale à pena.
Não sei se já mencionei, mas em 2001, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil. O fato, chocante, inaceitável, inumano, é irrisório perto da pergunta de um pai, quando confrontado pelo jornalista se não havia como o seu filho “ganhar um pouco mais de peso”. Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, com a sabedoria de quem luta para sobreviver, respondem ao repórter “o que você acha que eu devia fazer?” Este diálogo reflete o Brasil do neoliberalismo. O repórter, obviamente não sabia sobre o que perguntava e não conseguia compreender o que via e ouvia. Provavelmente foi dilacerado a cada entrevista, eis que humano. O pai entrevistado, sequer com tempo de tirar a enxada das costas para falar, desfere a pergunta fatídica que separava os brasis de forma tão evidente. “O que você acha que eu deveria fazer?” para salvar a vida da minha filha que não tem o que comer ...

Eu me recordo de assistir esta reportagem e chorar, copiosamente. Eu não choro com hino, bandeira ou camiseta verde amarela. Não choro por cântico religioso fervoroso. Não choro por ver alguém “atingir a meta” de malhar todo dia e perder peso. Não sou de reconhecer heróis em ações ordinárias e totalmente comuns. Eu chorei como criança vendo aquela série. O olhar de Evangelista para o repórter era a demonstração de que nada, absolutamente nada naquele país, poderia estar dando certo.

O que não consigo entender é como Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, se tornaram “vagabundos que se aproveitam do Estado para não trabalhar”. Ou ainda como a fome de sua filha poderia ser um reflexo “da meritocracia” que levaria – em um livre mercado – a sociedade brasileira a ser produtiva e rica. Não entendo como Ana Cláudia e Evangelista se tornaram o “problema das contas públicas do Brasil”, tendo contra si os dedos da classe média (saciada) e da maioria dos que apertam botões no parlamento, e que hoje defendem o fim dos programas sociais, dos direitos do trabalho e a redução de vencimentos para os mais pobres.

Apenas uma sociedade doente, ignorante e hipócrita pode acreditar que Ana Cláudia e Evangelista estão sofrendo assim por que não se esforçaram o suficiente. Apenas uma sociedade lunática, cínica e monstruosa pode se convencer de que eles sofrem desta forma por não terem fé suficiente ou por não terem depositado algum valor numa conta em nome de algum deus.

E eu não falei ainda da sua bebê, que padece da fome. Certamente quando ela crescer, depois de ter lutado para sobreviver, vai saber evitar as mazelas da sociedade. Vai se esforçar numa escola pública de algum sertão poeirento e seco e vai concorrer “de igual para igual” com alguém que comeu na infância toda e que “não aceita privilégio” de quem quer que seja.

Também não falei de você, que se “revoltou” com o conto das “pedaladas” e saiu a bater panelas vazias – de barriga cheia – querendo o “seu país de volta”. Pois a ONU informa que a fome voltou ao Brasil. O seu país, finalmente, voltou. E se você a ele reivindicar as cores verde e amarela, fique com elas. Não me farão falta as cores de um país em que uma criança morria a cada cinco minutos de fome. Um país hipócrita que não aceita vidraça quebrada, mas nunca se importou com as muitas Anas Cláudias e Evangelistas a enterrarem seus filhos em caixas de sapato, como “querubins sem pecado”, no único consolo possível.

Que bom que as cores nos diferem. Você fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que dê guarida a um país sem fome. Quem nos olhar saberá de pronto que não me misturo com quem prefere o cassetete à cabeça do estudante, quem prefere o privilégio da gravata à comida da criança, quem tem força física para bater em panela, mas padece de inanição moral.

Não sei se já falei, mas em 2001, aos sete anos do governo de FHC, uma criança morria a cada cinco minutos de fome, no Brasil.

Este país voltou ...

"ABOMINÁVEL SOCIEDADE"

por Fernando Horta

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